#A VOZ DO PASTOR #ROCEIRO DEZEMBRO 2017 / JANEIRO 2018

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O PEQUENO GRANDE SINAL

Há pouco mais de 2000 anos, num pequeno país ocupado por forças estrangeiras (Romanos), onde a vida do povo era marcada por muitos sofrimentos, ressoou um anúncio grandioso, uma grande alegria para toda a humanidade, com um sinal dado aos pobres pastores, mas imperceptível pelos moradores de Belém: um recém nascido frágil, como todos os outros, dependente de pessoas “comuns”, Maria e José.

Numa manjedoura de Belém, ali, no meio do estrume, fora da cidade, entre os mais pobres, mas também acessível aos magos vindos de longe e prontos para se despojar e inclinar, e voltar por um outro caminho, transformados por este encontro, ali, e dessa maneira, Deus veio partilhar a condição humana. O Filho Jesus vindo revelar o amor do Pai, sem transformar tudo por magia. Sinal fraco, mas que não perdeu força, e ultrapassa mais de 2000 anos de história e que espera a nossa resposta e o nosso empenho.

Como os pastores, atraídos naquela noite pela luz e pelos anjos, também nós precisamos nos sentir atraídos por aquela mesma luz e sentir Deus mais perto do que nunca. Só assim, podemos compreender que o mundo é viável, que há mais motivos para o amor do que para o ódio, mais razões para a paz do que para a guerra. É preciso que façamos a experiência dos Magos, que, depois do encontro com Ele, tomaram um novo caminho.

Portanto, não podemos parar nas declarações de ternura diante do presépio: Que Menino fofinho, cabelos dourados, olhinhos da cor do céu! Não é hora de sentimentalismos e pieguices, mas de teologia natalina! O mistério que contemplamos é algo incrível, de dar calafrios e vertigens: Deus feito neném. Nunca o Deus todo-poderoso fez uma descida tão radical e se arriscou tanto! O amor de Deus se manifestou mais em Belém do que na cruz, porque há maior distância entre Deus e o homem do que entre o homem e a morte. A teologia do Natal nos ensina a não parar numa ternura adocicada diante do presépio para não pensarmos nas conseqüências de tal mistério da encarnação.

No Natal, um Menino nos é dado e Deus nos é revelado: Ele nos surpreende. Não combina com as costumeiras imagens que temos de Deus. Vem numa “embalagem” bem discreta. Em vez de Todo-Poderoso, Todo-Frágil (carente, dependente dos outros para sobreviver); em vez de Altíssimo, o Baixíssimo; em vez de palácio real ou hotel cinco estrelas, um estábulo; Deus podia se revelar de outro jeito espetacular.  Então, fica no ar a pergunta: Por quê desse jeito? Por experiência sabemos que há pessoas brilhantes, charmosas, bem sucedidas, que se impõem, mas nem por isso as amamos. Chegamos a invejá-las, detestá-las ou, no máximo, as admiramos. Deus não quer nada disso. Deus só quer ser amado, por isso vem feito criancinha, mendigando nosso amor, pedindo colo, acolhida. Não faz isso para chocar-nos, e sim para despertar na gente os sonhos mais lindos, que se concretizam somente quando se criam laços amorosos (“Se queres transformar uma pessoa, começa a amá-la; sem isso, jamais a farás avançar um passo” (M.Quoist).

Nesse sentido, o Papa Francisco nos convida a acolher o Neném do presépio, Jesus, no nosso caminho, junto com nossos irmãos e irmãs e o papa exprime o desejo de que a Igreja se torne uma “Igreja pobre para os pobres”, Igreja “em saída”, que vai em direção aos outros para chegar às periferias humanas; que procura os afastados nas encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos; que vive um desejo de oferecer a misericórdia do Pai, pondo-se de joelhos para lava-lhes os pés, tocando a carne sofredora de Cristo no povo; Igreja que contrai o “cheiro das ovelhas”; que acompanha as pessoas com muita paciência; que cuida do trigo e não perde a paz por causa do joio; que sabe oferecer a vida inteira até ao martírio. Igreja que tem alegria e celebra. (Alegria do Evangelho, 24).

Natal é o começo da realização do Sonho de Deus: ser um de nós, divinamente humano. A outra parte do sonho de Deus é que nós sejamos como Ele! Humanamente divinos! Perante o Mistério da Encarnação, nada pode continuar como antes. Se não acreditamos, estamos fechando as portas, como os habitantes de Belém (não havia lugar para ele). Se cremos, adotemos uma postura que combine com essa fé.

Finalmente, contemplemos o Mistério Único: Belém, Cruz e Eucaristia. Sempre o mesmo Cristo envolto em fraldas no presépio, num lençol na sepultura e numa toalha no altar. Um corpo como o nosso (mas gerado pelo Espírito Santo), verdadeiramente morto (mas vencedor, ressuscitado), verdadeiro pão (mas, sem fermento, imune a bolor). Cristo ontem, hoje e sempre! Eis que vos anuncio a maior de todas as boas notícias da História: Nasceu-nos um Salvador! Para quem está na escuridão, finalmente brilhou uma grande luz!

Nesta época de festa, alegria, ternura, reunião de família, compreendamos que a razão de tudo isso é o Menino deitado nas palhas da manjedoura. Corramos para Belém e deixemos aflorar aquele lindo sonho que dorme na parte mais pura de cada um de nós. Esse Menino é muito bom. Não explode em choradeiras raivosas; sabe esperar e adormecer em nossos braços, pois confia que, afinal, sua bondade irá nos contagiar e o mundo vai ser transformado.

Que as festividades do Natal, fim e começo de ano sejam ocasião para partilhar notícias, fortalecer os laços de amizade entre nós, com os de perto e os de longe!

Feliz natal e feliz ano novo,

para você leitor, sua família, amigos e comunidade!

Dom Ailton Menegussi

Bispo diocesano

 

 

 

 

 

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