#A VOZ DO PASTOR #ROCEIRO JULHO / AGOSTO 2020

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HORA DE VOLTAR À VIDA “NORMAL”?

Queridos irmãos e irmãs em Cristo Ressuscitado,

Há vários meses estamos vivendo fora da normalidade. Não é isso que ouvimos o tempo todo ou, quem sabe, até repetimos inúmeras vezes? Quando voltaremos à normalidade? Quando a vida voltará ao normal?

Pois é. Será que vamos voltar ao “normal”? Será que deveríamos voltar àquilo que chamamos de “normal”? Não seria melhor não voltarmos àquela normalidade que causou esta a-normalidade? Não seria mais acertado permanecermos numa certa “a-normalidade” que estava nos fazendo falta? Mais tempo entre nós na família, menos consumismo desnecessário, menos gastos supérfluos, menos reuniões, menos poluição por monóxido de carbono (descargas dos veículos), mais acompanhamento do processo escolar dos filhos, mais oração em família, mais solidariedade com os menos favorecidos, mais respeito por alguns profissionais, dos quais re-descobrimos o valor de seus ofícios, mais dedicação e distribuição das tarefas domésticas, mais cuidados com a própria saúde, mais cuidados com a vida do outro, mais preocupação com os idosos, mais tempo para falar com os amigos, mais tempo para descansar, mais pensamento voltado para Deus. Ah, sem dizer que apareceu mais dinheiro do governo para benefícios sociais, construção de hospitais, aquisição de equipamentos hospitalares etc etc etc.

Tenho a impressão de que, quando voltarmos à “vida normal”, talvez não demore muito para sentirmos saudade daquele tempo de “vida a-normal”. Tempo de vida, em muitos aspectos, com mais qualidade de vida, com mais humanidade.

Alguém disse que essa pandemia nos tornou mais desumanos. Não posso concordar. Ela, por certo, pôs às claras muitas situações de desumanidade sempre existentes muito perto de nós, mas nem sempre percebidas por muita gente, ou simplesmente tratadas com indiferença. Porém, o fato de tornar visíveis os milhões de brasileiros invisíveis, as péssimas condições do sistema de saúde em tantas cidades e estados do país, a reserva de recursos públicos disponíveis para os mais pobres (e foi preciso fazê-la chegar aos pobres; caso contrário, muito provavelmente, seria desviada pelos esquemas de corrupção nos vários escalões de governo). Ter trazido à luz estas e outras tantas realidades é processo de desumanização ou uma oportunidade para uma maior humanização da saúde, dos governantes, dos mais pobres, de todos nós?

O que entendemos por NORMALIDADE? O que queremos como “NORMAL”? A continuidade de um mundo que é pensado, organizado e fatiado para uma pequena parcela da população mundial? O que queremos como vida normal é retornar ao estresse de sempre, ao consumismo individualista e egoísta? Normalidade é poder freqüentar a escola, ir à igreja, mas não aprender a amar nem comungar da dor e do sofrimento dos milhões de invisíveis para o mercado do capital?

Claro que o trabalho, o emprego são importantes e necessários. Claro que a alimentação da fé, através da participação coletiva nos templos é importantíssima. Obvio que a frequência à escoa é indispensável. Sabemos dos desafios das médias e pequenas empresas, sobretudo, para recuperar sua estabilidade. Mas, o retorno à “vida normal” não deveria ser repensado, reorganizado, redimensionado, colocando ao lado dos critérios da eficiência técnica e produtividade econômica outros critérios de sustentabilidade, ecológicos, humanização, participação política? Será que o retorno à “vida normal” não deveria se valer das lições da pandemia, desse ser invisível aos nossos olhos, mas experimentado tão de perto e de diversas formas? Será que não se deveria a aprender a ser mais cidadão (ã), mais gente, mais humano (a) e menos partidário de direita ou esquerda, comunista ou capitalista, ocidental ou oriental, progressista ou conservador, do norte ou do sul etc?

De qualquer modo, o homem e a mulher de fé são sempre capazes de transcender o fato, o objeto em questão e enxergar para além do mesmo; é capaz de tirar algum bem de uma situação de dor e sofrimento. Essa pandemia pode ajudar-nos a aprender lições importantes de solidariedade, de compromisso, de valorização da família, da escola, do trabalho, da comunidade, de um abraço, de um sorriso; o valor da sensibilidade com os mais vulneráveis, da partilha fraterna, da liberdade de ir e vir, da sobriedade, enfim, de um estilo de vida mais simples e saudável. Afinal, a vida é “Dom e Compromisso”. É preciso vê-la, sentir compaixão e cuidar dela. Eis a nossa primeira vocação.

 

Dom Ailton Menegussi

Bispo Diocesano de Crateús

 

 

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